No mundo da literatura há sempre aquela discussão entre YAs (Young Adults) e clássicos. De um lado, as pessoas dizem que clássicos são chatos. De outro, os que dizem que YAs são livros que não acrescentam nada com sua leitura, que é puro entretenimento.
A verdade é que ambos estão em parte certos. Muitos clássicos são chatos, assim como muitos YAs são vazios. O que não podemos é generalizar.
A série Jogos Vorazes é uma das provas de que nem todos os YAs são vazios de significado. De que nem todos os YAs servem apenas para entretenimento. Não são os livros mais difíceis de se ler, nem os mais emblemáticos, mas são ótimos livros que, além de entreter, trazem algo a mais. Algo que nos faz pensar. O que não devemos é ler apenas nos atendo ao entretenimento, e sim refletindo sobre o que traz nas entrelinhas.
Pra começar, o argumento mais forte de todos para comprovar a tese é a crítica social que o livro traz. Distopias são livros que geralmente trazem uma crítica, e com Jogos Vorazes não é diferente. Temos diversas críticas colocadas de maneira muito inteligente pela autora Suzanne Collins:
1. O controle que o governo exerce sobre a população
Todo o controle da Capital sobre os doze Distritos, obrigando-os a enviarem a cada ano dois adolescentes para os Jogos Vorazes e reprimindo todos os atos por meio dos Pacificadores;
2. O descaso do governo
Assim como a Capital controla fortemente os Distritos, ela também os deixa à sua própria sorte, o que acontece com o Distrito 12. Todas as necessidades do Distrito são de conhecimento da Capital, mas ela não faz nada para supri-las;
3. A alienação da população por meio do entretenimento
Os Jogos Vorazes são jogos cruéis. Adolescentes lutando pela própria vida em uma arena, enquanto a população apenas assiste, sem fazer nada para que acabem. Nada mais é do que um meio de controlar a população usado pela Capital: cada distrito é obrigado a enviar um casal de adolescentes, o que faz com que sejam obrigados a assistirem aos Jogos e evita com que se rebelem (afinal, os idealizadores podem fazer coisas terríveis com os parentes ou amigos que se encontram na arena).
4. Panem et circenses
Panem (que irônico, justamente o nome do país) et circenses é aquilo que melhor resume os Jogos e parte de tudo o que eu falei anteriormente. Essa era a política usada pelos romanos para lidar com a população. Quando estavam em crise, os romanos criavam, em grandes arenas, espetáculos sangrentos com gladiadores e ainda distribuíam cereais e coisas do tipo, o que distraía a população dos problemas. Os Jogos, a apresentação dos tributos, tudo foi feito para manter a atenção da população enquanto Panem sofre com sérios problemas;
5. Desigualdades sociais
A crítica às desigualdades sociais também é muito frequente e bem colocada. Enquanto nos outros Distritos (principalmente no 12) pessoas vivem em casas precárias e passam fome, na Capital as pessoas provocam o vômito para poderem comer mais (algo inclusive criticado por Peeta em Em Chamas);
6. Os exageros dos mais abastados
Enquanto alguns têm que se virar com o pouco que têm, na Capital as pessoas simplesmente consomem e consomem e consomem e consomem. As vestimentas e maquiagens exageradas, por mais que façam as pessoas se parecerem com drag queens, demonstram bem o exagero das pessoas da Capital ("se eu posso comprar, por que não?");
Essas são algumas das críticas sociais, mas não são os únicos motivos. O triângulo amoroso envolvendo Katniss, Peeta e Gale também conta. Você pode pensar "onde um triângulo amoroso não é uma coisa teen?", mas vamos pensar bem... enquanto em outras histórias (não vou citar nomes, mas é claro que você conhece exemplos) temos uma personagem principal um tanto frágil e dois rapazes que se esquecem de seu propósito na vida e usam de intriguinhas e manobras para poderem disputar o amor dela, em Jogos Vorazes temos o contrário: uma personagem principal forte, que no fim das contas está pouco se lixando para o romance enquanto uma rebelião eclode ao seu redor, e dois rapazes que a amam, mas que estão conscientes de que o mundo não gira em torno disso e seguem com os propósitos de sua vida. De um lado temos Peeta, que sofre por ter acreditado em um amor que para Katniss era só fachada, mas que não deixa que isso atrapalhe sua vida e segue fazendo o melhor, tanto para ela quanto para as outras pessoas ao redor (como por exemplo inventando uma gravidez para Katniss, na esperança de que os Jogos fossem adiados, cancelados ou algo do tipo). Do outro temos Gale, um rapaz que a ama, sim, e que fica abalado pelo teatro convincente demais que Katniss interpreta ao lado de Peeta, mas que entende a situação e segue com sua função no mundo, desafiar o governo e ajudar na rebelião que se iniciará em todo o país.
Sim, muitas pessoas só levam a série pelo lado do entretenimento e gritam quando personagens bonitos aparecem, mas isso não significa que a série seja apenas isso. Não devemos criticar uma obra por causa de metade de seus leitores.


Me lembro bem de pessoas comentando no Twitter durante as manifestações que ocorreram no país todo há alguns meses: "Meu Deus, isso tá parecendo Jogos Vorazes!". De início achei uma comparação um tanto boba, mas no fim das contas essas pessoas tinham razão.
Sim, no caso do Brasil o gigante já voltou a repousar, mas o fato é que Suzanne Collins usou de bases bem reais para a sua história e conseguiu construir algo que, por mais que seja ficção, tenha um grande pé na realidade.
Espero que tenha gostado, até a próxima ;D
