sábado, 17 de dezembro de 2016

[O mundo fora da estante] O problema do "mas..."

vai ter Gretchen sim, se reclamar coloco duas

Oi migos, cês tão bem?
Hoje estou aqui, mais uma vez, pra fazer textão pra falar sobre assuntos polêmicos da vida. Como esse blog é bem amplo e minha ideia com ele nunca foi me restringir apenas à literatura, estou tomando a liberdade de escrever alguns posts com um viés mais político/ideológico do que só sobre livros, afinal o mundo é tão maior e tão mais complexo, né?
Falarei um pouco sobre o problema do "mas...", do qual me toquei há algum tempo, e desde então venho percebendo em muitos discursos pseudo favoráveis/simpatizantes/apoiadores de muitas causas por aí.
O "mas" vem, junto com o porém, o entretanto, o contudo, dentre muitos outros, para trazer uma ideia de oposição. Basicamente, o "mas" anula tudo o que você acabou de dizer. Se você amou tal coisa, mas não gostou disso, disso, daquilo e mais daquilo, talvez você não tenha amado tanto assim. Esse é só um exemplo bem bobinho pra demonstrar o poder do "mas", que se torna muito mais perigoso em outros tipos de discurso.

Gay é normal, mas...

Mas não é bom deixar muito na cara, né? Mas acho desagradável ver demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo em ambientes públicos. Mas não é algo que deveria ser ensinado em escolas, porque pode estimular criancinhas héteros em potencial a migrarem pro vale dos homossexuais. 
Nada de bom pode vir depois desse "mas...", e, principalmente, nada que mantenha íntegra a ideia que aparentemente seria passada no início: a de que gay é normal, ué. Se você tem algum desses "mas" (ou todos eles, o que seria preocupante), talvez não ache tão normal quanto pensa. 

A mulher pode se vestir da forma que quiser, mas...

Mas, se usar uma roupa muito curta e for assediada na rua, ela está pedindo. Mas é bom se dar ao respeito (respeito este que está sempre vinculado ao tamanho da sua roupa, que parece nunca ser longa o bastante), pra poder esperar que os homens a respeitem também. Mas não precisa sair por aí parecendo uma puta, né?


Não sou racista/homofóbico/machista, mas...

Se você não é, você não é. O "mas" está aí pra provar que você, nem que seja no fundinho, ainda traz algum traço (por menor que seja) de racismo/homofobia/machismo. Só admita, porque é admitindo que você pode entender qual exatamente é o seu preconceito e onde ele reside. Bradar por aí que não tem preconceito nenhum, além de hipócrita, é ser cego sobre os próprios defeitos.


Já deu pra perceber que nada de bom pode vir depois de um "mas...", em discursos como esse, né? Se você realmente é simpatizante, apoiador ou o que for de determinado movimento, não tem mas, não tem porém, não tem entretanto, nem nada do gênero. O que tem é uma continuidade da ideia, ou um simples ponto final. Gay é normal *ponto*, a mulher pode se vestir da forma que se quiser *ponto*, não sou racista/homofóbico/machista *ponto*. 
Se você tem seus "mas...", pense sobre eles, tente interpretá-los. Não finja que ele não está lá, não deixe ele passar batido, não continue a sua sentença como se você realmente apoiasse a ideia, quando tudo o que pode fazer depois do "mas" é contradizê-la.

Beijos de luz no coração de todos vocês, até a próxima ;)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

TOP 3: Franquias de adaptações literárias que desandaram completamente


Oi, migos, como vocês estão?
Hoje eu estou aqui para falar um pouco sobre adaptações literárias. Mais especificamente, aquelas tão ruins, mas tão ruins que, em um filme, me fizeram abandonar completamente a ideia de continuar acompanhando-as nos cinemas.
Antes de mais nada, eu gostaria de comentar sobre uma coisa que, quando tive a ideia para o post, me veio à mente e fiquei muito "nossa, será mesmo?". Nos últimos anos, principalmente desde 2011, ano em que o último filme da saga Harry Potter foi lançado, houve um boom de adaptações de sagas literárias juvenis. Um boom muito grande. E, com o sucesso de Jogos Vorazes, o boom foi de adaptações de distopias adolescentes.
Agora, porém, desde que A Esperança: Parte 2 foi lançado, parece que as adaptações de livros assim meio que sumiram dos cinemas. A única franquia que começou mais recentemente foi A Quinta Onda, da qual eu até que gostei, e ainda temos os últimos e coitados filmes de Divergente sendo lançados, mas parece que esse boom murchou. Pode ser só impressão minha, mas acho que esse tipo de franquia, de alguma forma, saturou os espectadores e produtores, e agora nós temos outro boom muito enorme nos cinemas: o de filmes de heróis. Eles invadiram as telonas com tudo, e parece que os outros blockbusters do mercado murcharam, foram eclipsados, estão recebendo cada vez menos destaque, em detrimento de Marvel e DC Comics (não que eu reclame, no caso).
Agora sim, voltemos às adaptações muito péssimas, ou que começaram de forma promissora, mas que também ficaram muito péssimas. Vamos lá?

3. Percy Jackson e os Olimpianos

Essa é a escolha mais clichê possível para se falar sobre adaptações que deram bem errado na vida. Até mesmo o próprio autor dos livros, Rick Riordan, recomendou a professores que não vissem os filmes quando dessem aulas sobre mitologia greco-romana. Mas eles se encaixam perfeitamente na proposta da minha lista: foi uma adaptação tão ruim, mas tão ruim, que, depois que vi o primeiro, peguei um nojo tão grande que não quis ver mais nenhum. Não que eu tenha perdido muita coisa: foi um projeto tão fracassado, que só mais um filme foi lançado antes de a franquia ser largada de vez. 

2. The Maze Runner



The Maze Runner foi um dos maiores sofrimentos cinematográficos do meu 2015. O primeiro longa até que foi bom. Eles mudaram bastante coisa, sim, fazer o quê? Estava aceitável, dava pra engolir. Além do mais, mesmo que os caminhos tenham sido meio tortuosos, eles conseguiram chegar aos mesmos finalmentes que o livro de James Dashner e estava tudo "beleza, que venha o próximo". Aí chegou Prova de Fogo.
Não é frescura de leitor dizer que esse livro foi adaptado muito mal, isso está gritante ao longo de toda a sua duração. Enquanto o primeiro mantém a base original e mexe em umas coisinhas, o segundo mantém umas coisinhas e muda toda a base original, Muitos dos eventos mais loucos do livro foram mudados de uma forma tão desanimadora, que eu não sei nem mensurar.
Mas o pior de tudo foi o final. Enquanto o final do livro traz uns momentos muito "??????????????????" e deixa o leitor muito cabreiro e louco pra ler o próximo, o filme decide tomar um rumo que não só ficou bem ruim, como não foi nem um pouco original (aquele "I need to kill Ava Page" foi 100% Katniss querendo matar o Snow e Tris querendo matar a Jeanine). Se eu fosse James Dashner, teria passado 95% do filme em prantos. 
Por isso, é mais uma das franquias que desandaram nas telonas. O terceiro estava em fase de produção, mas foi paralisado por conta de um acidente muito feio em que Dylan O'Brien, o Thomas, literalmente quebrou a cara (sim, ele fraturou múltiplos ossos da face). De qualquer forma, talvez este eu ainda veja, mesmo bastante desanimado, só para ver (perdoem-me o vocabulário de baixo calão) a grande merda em que vai dar. 

1. Divergente



Divergente está em primeiro do meu Top 3, porque foi uma decepção muito, muito, muito enorme mesmo. Eu gostei bastante do primeiro longa e da maneira como adaptou o livro, mas Insurgente jogou tudo isso no lixo e ainda fez questão de cuspir em cima. É um filme nojento, dá até uns calafrios, e não é ruim só no quesito adaptação: é péssimo também como um filme normal mesmo. 
Outra decisão que contribuiu para que tudo desandasse foi a beleza da decisão de dividir o último livro em dois filmes. Alguém me dê uma explicação plausível pra isso, que não seja "só queríamos ganhar mais dinheiro mesmo"
Desde o primeiro trailer, fiquei tão puto da vida com o rumo que deram para toda a história criada por Veronica Roth (que não é das melhores, mas eu gosto, tá?) que decidi não ver, de jeito nenhum, esse grandessíssimo desastre nos cinemas. E, aparentemente, não fui o único: as bilheterias de Convergente: parte 1 foram um fracasso tão profundo, que o orçamento para o último filme foi drasticamente reduzido, e colocou em risco de, inclusive, sequer ser produzido. Não há melhor termômetro para mostrar aos produtores a caca que eles fizeram com a história. 

E vocês? Têm alguma adaptação literária que decepcionou tanto, a ponto de perderem a vontade até mesmo de ver os próximos?
Espero que tenham gostado, até a próxima ;)

PS. Agora que entrei de férias do colégio, estou preparando vários posts para ressuscitar o blog ao longo do mês. Se você aí achou que tudo estava perdido, por favor, me perdoa e não desiste de mim!

domingo, 15 de maio de 2016

Vamos falar sobre Dom Casmurro

Oi, migos, como vão?
Hoje estou aqui (depois de mais um hiatus imenso, perdão) para falar sobre um dos maiores e mais comentados clássicos do nosso país, escrito por um dos melhores autores da literatura brasileira (e, particularmente, meu favorito): Dom Casmurro, de Machado de Assis!
O livro nos leva em uma espécie de tour psicológico pelo desenvolvimento da relação entre Bentinho e Capitu, que começou como uma história de amor muito belezinha, mas que terminou com uma atmosfera de muita desconfiança e até mesmo de ódio.
Bento e Capitu sempre foram muito próximos, crescendo praticamente juntos, e, ao chegarem à adolescência, perceberam que o que sentiam um pelo outro era, na verdade, amor. Acontece que, quando ele nasceu, sua mãe fez uma promessa que envolvia, como parte do cumprimento, mandá-lo para um seminário quando ficasse mais velho, para que ele se tornasse padre.
Não precisa nem dizer que essa promessa tornou-se um enorme empecilho para o relacionamento dos jovens. Traduzindo, bugou completamente o rolê dos dois. Bentinho, sem muita voz ativa para enfrentar a mãe sobre as decisões que envolviam sua própria vida, nada fez para tentar mudar isso, e lá foi para o seminário, sendo separado da amada.
Ele não se torna padre, vale ressaltar, mas, pelo menos, o seminário serviu para que conhecesse aquele que vem a ser seu melhor amigo, Escobar (que, by the way, também não vira padre).
Depois de muito tempo, já adultos, Bentinho finalmente se casa com Capitu, com quem tem um filho. Sua família e a de Escobar eram muito próximas e, quando o rapaz morre, todos estão presentes no velório. É aí que tudo começa a desandar.
Bentinho sempre deixou transparecer que é um homem muito ciumento (bem inseguro com relação ao próprio taco, digamos), mas o ciúme atinge seu ápice ao ver a esposa chorando pela morte do amigo. Ele enxerga, no jeito com que Capitu sofre pelo defunto, o sofrimento de quem perdeu o amado, e, à partir de então, torna-se desconfiado de um jeito bem doentio, chegando até mesmo a acreditar que seu filho é, na verdade, filho do melhor amigo. 
Daí vem a clássica pergunta: Capitu traiu ou não? E a resposta mais clássica ainda: não sei. Ninguém sabe.



Essa dúvida é plantada de maneira genial por Machado. De certa forma, ele nos dá motivos para acreditar nas duas possibilidades, e nunca, em momento algum, fica explícita a resposta para a grande questão.
Quando eu era mais novo, eu acreditava que fosse um segredo universal que todos aqueles que leram o livro guardavam para si, como um spoiler que, se fosse dado, tiraria toda a graça da coisa. Mas a verdade é que a resposta não está lá! Quer dizer, está. Mas não está.
Pra começar, a narração é em primeira pessoa, o que já deixa qualquer conclusão muito mais difícil. Bentinho é um narrador nem um pouco confiável. Primeiro, porque é bem louco de ciúmes, então é claro que, vendo por seus olhos, qualquer coisinha que Capitu faça pode parecer uma coisona enorme. Segundo, por mais e mais motivos que não vou contar porque, né, faz parte da graça do livro.
Por outro lado, Capitu é descrita como uma mulher bem espertinha desde sempre, que sabe fingir muito bem, quando precisa. E, assim como disse sobre Bentinho, há mais alguns motivos cuja descoberta dá graça ao livro.
Particularmente, acredito que ela não traiu. Mas essa conclusão não passa de achismo, e isso é um dos principais fatores que perpetuaram Dom Casmurro como um dos maiores livros da nossa literatura, conseguindo se manter vivão até hoje e prometendo continuar assim até, tipo, sempre.
É uma narrativa lenta, não nego, mas isso se deve principalmente ao fato de ser muito reflexiva, o que torna a leitura muito gostosa de se acompanhar. Se você, assim como eu, preza pela profundidade dos personagens, e gosta de acompanhar character development, esse livro é um prato mais do que cheio!
Machadão faz uma verdadeira viagem pelos pensamentos mais obscuros de Bentinho, e nos sentimos realmente imersos. É muito interessante a maneira como os lugares e a aparência física parecem nem ter tanta importância, mas os olhares, os gestos mais repentinos, tudo ganha muita atenção e faz toda a diferença (Capitu, por exemplo, tem os olhos como uma de suas principais características, como se fossem a janela de sua alma). Para quem se interessa por psicologia, está aí outro prato cheio.
Mas, já aviso: é um livro que não deve ser lido como qualquer outro. Deve-se estar sempre atento às entrelinhas. Nada é desperdiçado, e as palavras estabelecem uma harmonia perfeita entre si, como se fossem escolhidas com o maior dos cuidados por parte do autor para dar o efeito desejado. 
Tive que ler para a escola, mas, sem dúvidas, foi a melhor leitura obrigatória que já tive na vida!
Recomendo muito, mas, já que pode não ser um livro que você lerá como lazer em uma tarde ensolarada de domingo, digo pelo menos que não reclame quando seu colégio te mandar lê-lo, e não perca essa oportunidade com resumos ou com uma leitura rasa. Você nem imagina a joia que terá em mãos!

Espero que tenham gostado, até a próxima ;D

P.S. E aí, traiu ou não?